quinta-feira, 18 de junho de 2020

Tassie e os UFO's

Na virada do ano de 2019/2020 nós fomos para a Tasmãnia, essa ilha ao sul da Austrália que antes eu só conhecia de ouvir falar do tal do Demônio. Claro que minha vida aqui na Australia me trouxe um pouco mais de conhecimento mas nada muito profundo que me fizesse saber que esse lugar seria tão mágico.
O destino inicial foi Hobart, essa linda cidadezinha, pacata e aconchegante com arte transitando por suas ruas e pessoas muito simpáticas, mas aquele ar meio sombrio, me sentia em um livro de conto de fadas mas andando pelas vielas sombrias quando o hermitão vai ao encontra o velho mago na montanha...nah, ainda não, a cidade é uma graça e fomos para o museu MONA, que tem uma história toda peculiar com o seu fundador David Walsh e o quanto esse apostador quebrou os cassinos e fez sua riqueza.
O MONA foi sensacional, muita arte, o lugar todo, o prédio onde o museu é situado, é tudo muito surreal e te leva pra outras dimensões. Na volta estava acontecendo esse evento de comidas e bebidas, paramos para ver o que acontecia e subitamente me senti hipnotizado por essa banda tocando o disco Revolver dos Beatles, open band, músicos subiam e desciam do palco, uma grande jam, essa cara que parecia o David Lynch, com uma gravata torta, copo na mão, cantando: I WANT YOU, I WANT YOU SO BAD. Uff...consegui dar uns bolas com uns senhores de uns 60 anos que fumavam um do lado de fora e assistindo a banda. Na verdade, vi as pessoas mais velhas serem bem descoladas em Tassie. 


Dia seguinte pegamos a van e partimos para a estrada, aplicativo de camping indicando os melhores lugares para passar a noite, um monte de camping grounds em todos os lugares, pinguins cantando a noite inteira e fomos seguindo para o norte da costa leste da ilha.
No dia 31 paramos nessa Friendly Beach e achamos um camping muito bacana com um manager super simpático que logo mostrou onde deveríamos parar e os lugares para ir visitar ali na área.
A oferta desse ácido mais potente por um amigo me fez achar que era o lugar ideal para experimentar e realmente bateu intensamente mas não muito prazerosamente, me senti travado, queixo batendo e o Sol rachando na cabeça, sentados na praia, tocando a cantando, me sentia estranho e as tentativas da Gabi no ukulele me incomodavam, nossa conexão já estava perdida logo no começo da viagem, como costumeiramente, algum motivo banal, a fagulha riscada e todo um temporal que se desaba sobre nós dois. Mas ainda me sentia focado em curtir e aproveitar ao máximo. Voltamos para a van para comer e nos refrescar. Sentado ali na cadeira, Gabriela cozinhando algo e ela aponta para o céu me perguntando o que era aquela luz. Eu ainda sentia os efeitos do ácido e sim era muito clara aquela luz no céu e parecia algo totalmente diferente. Eu não quis acreditar logo de cara e comecei a colocar todas as possibilidades que poderiam ser, avião? Balão? Lixo espacial? Mas voando dessa maneira, não era uma linha reta, fez variações no ar e sumiu...sentia meu coração disparado e incrédulo, justo eu, um grande admirador das civilizações interestelares não queria acreditar na primeira vez que eu visualizasse, queria ter certeza absoluta do que eu tinha visto.
Cante Raul Seixas: Ooo seu moço do disco voador, me leve com você, pra onde você for. Me senti conectado com a minha mãe, senti a presença dela e o sonho de voar numa espaço nave. Sentia todo esse turbilhão de emoções claramente amplificado pelo ácido e tive uma explosão de emoções com a Gabi e o jeito estranho e peculiar dela….desabei em choro forte, como a muito tempo eu não chorava, achei que ali era nosso fim mesmo, entendia toda essa não conexão entre nós dois, o quanto as nossas diferenças nos afastavam de verdade, o quanto era difícil para nós dois vivermos aquela situação, o quanto era pesado e estava acabando com a nossa sanidade, com a minha sanidade. Quase fomos embora. Respira, silêncio, silêncio, silêncio, 3, 2, 1…..feliz ano novo….que merda….
Vamos para a praia, com aquela garrafa de champagne mais cara que era pra ter sido aberta no momento exato, foda-se a garrafa de champagne mais cara, eu pouco me importo, queria só estar com um puta sorriso no rosto naturalmente...mas isso tem sido difícil ultimamente…
Bebemos a garrafa até o fim, cada gole deveríamos dizer em voz alta uma lembrança boa entre nós dois, terminamos a garrafa bêbados e um pouco mais calmos e aliviados...
Esse grupo andando de longe pela praia, vem subindo a costa onde estávamos sentados no pico, esse barco de pescador invisível no meio do oceano com aquela luz intensa como uma estrela na escuridão do mar, logo pergunto se o que ele fumava era um beck ( sim, eu tava sem nada lá) e ele diz que eles tinham no onibus deles...fui presenteado com alguns nugs de uma planta bush daquela terra que eu me senti muito honrado de ter me encontrado. Altos papos com a moçada e voltamos para a praia onde mais uma vez vimos luzes no céu, duas simetricamente voando juntas, bailaram por um tempo em direções aleatórias mas sempre juntas simetricamente e sumiram….era demais pra acreditar...mas sim, pareceu ainda mais real….
O Sol nasceu como um poster dos anos 90, neon style, sim, eu tinha tomado o resto que eu tinha e a manhã trouxe novos ares e partimos assim que acordamos. Seguiamos em direção das árvores gigantes no lado Oeste e continuamos parando até chegar nas Craddle Mountain, totalmente isolado e realmente muito jurássico, com plantas gigantes, samambaias árvores e eucaliptos de tamanhos comunais. Eu esperei a todo momento que veria algum dinossauro aparecer, mas vimos muita fauna, muito animais. Chegamos até essa velha senhora de mais de 400 anos e a energia era muito intensa, muito respeito, muita admiração, música na floresta e após uma trilha no dia seguinte tive uma outra grande conexão durante todo esse trajeto, muito pensativo e emotivo. Esse senhor vestido igual meu pai me trouxe dor e saudades, sentia a vibração daquela terra muito forte, o caminho inteiro eu ficava olhando para esse monte ao fundo, me sentindo na presença daquela montanha me olhando enquanto eu caminhava por lá….olhei no mapa e o nome era Mt Olympus.
Perdi a chave da van, tínhamos poucas horas pra voltar pra Hobart e pegar o vôo de volta, pânico e desespero de novo, aquela tensão que me afunda no limbo, mas eu não podia perder o foco e pedindo pra toda a floresta achei a chave de volta, Voltamos pra Hobart e após conseguir parar pra comer algo voltamos pra Sydney. Intenso. Fiquei ainda processando por muito tempo toda a intensidade dessa terra e uma vontade certa de que voltarei algumas vezes, quem sabe não ser o hermitão da velha cidade de Hobart.
Valeu Tassie








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