quarta-feira, 11 de abril de 2018

Laos Dez17/Jan18



Destino foi Laos, de férias de fim de ano, eu e Gabi, parada na China, Kumming, todos me acham esquisito, a barba e as tatuagens chamam atenção, comunicação muito difícil, poucos gestos e expressões e somente chinês falado, fast foods sempre salvam. Chegamos em Laos e uma rápida ida de tuk tuk para o hostel onde a moça simpática já nos deu todas as coordenadas da cidade, minha primeira vez na Asia, tudo muito diferente, me fascino logo pelo movimento da rua e quero sair caminhando. Night Market disseram e lá fomos, chegando na esquina já abordado pelos vendedores de tudo, de tudo mesmo. Fui dar uma volta pela centro, ver todas as coisas diferentes que um mercado ao céu aberto pode oferecer, mas me interessava mais pela comida, queria sentir os sabores pois o cheiro do lugar já me colocava nesse Universo mágico dos sabores. Churrascos em todos os lados, tudo nas brasas do carvão, tudo o que se pode imaginar, o preço me deixa mais feliz ainda, tudo muito barato com o dinheiro que gasto hoje. 

Luang Prabang é a cidade, seu centro sempre bem movimentado, bares abertos em todos os lugares, os locais bebem e festejam a noite, logo já compro umas cervejas Beerlao ( essa foi a única que cerveja que tomei a viagem inteira e trouxe uma camiseta dela ) e tento me comunicar com as pessoas. Sempre todos acham graça do meu estilo e não foi difícil fazer amigos, inclusive um que me ofereceu erva assim que cheguei na cidade, pulei no tuk tuk e 15 minutos depois eu já tinha algumas gramas no bolso. Dias nublados mas quentes, rolês para as cachoeiras na scooter alugada, cenário de filme de Van Damme e Chuck Norris, aquelas montanhas lindas, aqueles caminhos por plantações de arroz e caminhões velhos pela estrada ultrapassando a senhora com 3 filhos pequenos numa mobilete, todos sem capacete. Cachoeiras de águas azul turquesa bem forte, água fria, mas impossível não entrar, sentir as vibrações das águas agitadas. A noite de volta pela cidade, poucos dias depois foi virada do ano, conhecemos o bar badalado, conhecemos o cara mais figura da cidade, tomei um porre de jagermeister, apaguei. Dia seguinte acordo com o cântico nas caixas de som do monastério budista a um quarteirão do hotel, saímos do hotel, voltamos a noite, o cântico ainda rolava em alto volume e não parou até a manhã seguinte. Gosto muitos dos mantras e cânticos de todos os países, mas esse tinha um estilo bem estridente e descompassado e realmente foi uma noite bem difícil de dormir.

Um dia volto pro hostel sozinho trazendo duas garrafas de cerveja na sacola, voltando de uma sessão de cinema ao ar livre na escola da cidade e um grupo fazendo um churrasco na esquina, tocando violão e bebendo lao whisky me chamam pra sentar com eles, logo já experimento o churrasco o que eles cozinham, uns assados e vegetais enrolados com rice paper, uns goles de whisky e a conversa, mais gestual do que em palavras vira em se podia tocar o violão, depois do repertório laones eu toquei um bom e velho Tim e todos se levantaram e dançaram, Cultura Racional no meio de Luang Prabang, era hora de ir pra Vang Vieng.

A estrada foi tortuosa, cheia de curvas, daquele jeito que bota meu estômago de ponta cabeça, e a cidade, muito menor que Luang Prabang dava um clima ainda mais acolhedor, um lugar bem tranquilo mas com muitas opções para se fazer de dia e de noite. Já encontramos um bar de frente pro rio e que acabamos voltando todos os dias, tudo muito aconchegante. Full Moon bar, com a foto do Bob Marley na porta e o cartaz dizendo Laugh Balloons fez eu entrar, no balcão me oferecem o happy menu e vejo que eles vendem vários tipos de drogas, pensei: fu-deu! bang!
Já sabia que era conhecido por ser fácil de encontrar ópio por lá e a curiosidade de conhecer essa planta milenar, citada em pirâmides e escritos muito antigos, fez com que eu pedisse o chá com ópio, como foi recomendado pela senhora que tomava conta desse departamento dentro do bar. Servido um chá qualquer de saquinho com uma bolinha marrom no fundo da xícara, tomei tudo e o final amargo deixou o gosto na minha língua. Deixei que acontecesse. Senti a pressão me apertar, sentir a luz ficar densa e o ambiente pesado como se eu tivesse debaixo d'agua.  Estava sob o controle, estava bem, o bar fechou e tive que voltar para o bangalô




Sentado na varanda do bangalô entrei em estado de inconsciência profunda, tinha uns apagões e me sentia mergulhar dentro de mim, num abismo de pensamentos e sentimentos, voltava em um lapso de tempo, via que a brasa do cigarro estava grande e apagava novamente, muito profundamente, dentro de mim, uma experiência enteógena que conheci nas diversas cerimônias de ayahuaska em que passei, mas creio que de maneira diferente, claro, cada planta é diferente da outra e essa tinha a mesma intensidade, a mesma profundidade. Refleti muito sobre essa ser chamada a planta dos sábios, encontrada em referências nos hieroglifos das pirâmides, dos magos e guerreiros, dos alquimistas, uma substância fez eu me conhecer melhor, mergulhar dentro do abismo do meu inconsciente e ter um encontro muito profundo com a minha pessoa.
Foram algumas horas nessa experiência e sai da varanda para a cama para um sono ainda mais profundo. Acordei no dia seguinte sem ressaca, nem nada, só esses flashbacks sobre o que tinha acontecido na noite anterior e muito pensativo.

Tínhamos mais alguns lugares para visitar e na mesma tarde voltei para o bar para conversar com a senhora que vendia o ópio. Disse que tinha gostado muito da experiência e queria provar de outra maneira, já que ela vendia em outras opções, ela sorriu, disse que eu era forte e que dessa vez eu deveria provar junto com o baseado para que fosse mais gentil e que eu não apagasse e pudesse lembrar mais da experiência. Com o baseado no bolso e uma porção de cogumelos mágicos fomos para uma volta pelos rios e cachoeiras de Vang Vieng, fumei o baseado e realmente foi mais gentil, mas mesmo assim bem intenso, me deixando pensativo e introspectivo, pensando no presente, sem pensamentos do passado ou do futuro, apenas presente, o momento, como deve ser, muito mágica essa substância sagrada e espero me encontrar mais vezes com ela por esse meu caminho.
A estadia nessa pequena cidade turística foi muito agradável mesmo e eu queria ter ficado mais tempo lá, com lugares mais simples, comida de rua, pessoas agradáveis, monges e aquela vibração linda dos deuses das montanhas que circundam todo o lugar. Hora de voltar pra Luang Prabang para mais alguns dias, uma rápida passada no Full Moon Bar para levar outro cigarro mágico para a outra cidade embarcamos em uma van com um motorista alucinado, voltando pela estrada sinuosa em alta velocidade, atropelando galinhas pelo caminho e tirando fina de crianças brincando na rua. Um pouco apavorante mas chegamos intactos.

Mais alguns dias lá, mais algumas idas em cachoeiras, meditação, muita paz, silêncio e tranquilidade. Foi o que eu precisava para começar o ano bem e carregado de energia. Foi após um dia de muita cachoeira que tive um sonho com Oxum, ela linda, negra, com um corpo escultural me olhava no fundo dos olhos! Estava abençoado para um novo ciclo. De volta para Sydney.